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Percepo da cor
Antigamente, na poca em que nossas bisavs criaram nossas avs, acreditava-se que o beb, ao nascer, era
quase incapaz de ver. Supunha-se que o recm-nascido no reconhecia fisionomias, tampouco distinguia 
formas e cores. Hoje em dia, em conseqncia das pesquisas realizadas na rea da psicologia do 
desenvolvimento infantil, os conhecimentos a respeito das capacidades perceptivas do ser humano por 
ocasio do seu nascimento esto mudando. 
O trabalho realizado por inmeros cientistas interessados no assunto mostra que, apesar da acentuada 
imaturidade e do prolongado perodo de dependncia ps-natal, o beb vem ao mundo bem mais preparado 
para perceber o que acontece ao seu redor do que nossas bisavs, provavelmente, estariam propensas a 
acreditar. No captulo 15 o desenvolvimento perceptivo ser discutido detalhadamente, mas podemos adiantar 
que dentre os principais resultados experimentais encontram-se as demonstraes de que nossa capacidade de 
perceber distncia, profundidade, fisionomia e cor pode ser verificada logo aps o nascimento. 
No princpio do sculo passado, Purkinje mostrou que nossa sensibilidade s cores se modifica quando 
passamos do escuro para a claridade ou vice-versa. Na lmina 5.1, encontram-se as curvas obtidas nestas 
duas situaes. Elas mostram que, no escuro (viso escotpica), o olho  mais sensvel aos verdes (devido  
maior sensibilidade dos bastonetes) e, no claro (viso fotpica), o olho  mais sensvel ao amarelo (devido  
maior sensibilidade dos cones). Esta sensibilidade  conhecida como Efeito de Purkinje. 
A percepo das cores foi alvo da ateno e curiosidade de numerosos estudiosos, que em diferentes pocas 
da histria da humanidade tentaram explic-la. Seus esforos resultaram na elaborao de teorias, algumas 
das quais nos acompanham at hoje. Poetas, como Goethe, e fsicos, como Newton, emitiram suas opinies a 
respeito da viso de cores. Aps a descoberta, em 1666, de que a luz solar, que  branca, na realidade  
composta por todas as cores do espectro visvel, o prprio Isaac Newton formulou algumas das primeiras 
hipteses segundo as quais haveria no olho humano um receptor para cada cor. As contribuies mais 
valiosas partiram, no entanto, de fisilogos como Thomas Young, Hermann von Helmholtz e Ewald Hering, 
autores das duas principais teorias sobre viso de cores. 
A primeira, teoria de Young-Helmholtz, tambm conhecida como teoria tricromtica ou teoria componente, 
explica de forma satisfatria os resultados experimentais obtidos em pesquisas que tinham como principal 
objetivo desvendar o papel dos receptores do olho. A segunda teoria, de Hering, denominada teoria oponente, 
explica muito bem os resultados experimentais obtidos em pesquisas que tomam como indicadores respostas 
envolvendo atividade neural alm do nvel dos receptores propriamente ditos. 
5.1. Teoria tricromtica, componente ou de Young-Helmholtz 
Segundo a teoria tricromtica (Young-Helmholtz), no precisaramos de um receptor para cada cor, como havia 
sugerido Newton; apenas trs tipos de receptores seriam suficientes para o ser humano perceber todas as 
cores do espectro visvel, desde o violeta at o vermelho. Thomaz Young e Hermann von Helmholtz chegaram 
a esta concluso a partir de um conjunto de experimentos de percepo visual criteriosamente controlados, 
com os quais conseguiram demonstrar que, misturando luzes de apenas trs cores (azul, verde e vermelho), as 
pessoas relatavam ver todas as cores do espectro. Diante disto, desenvolveram a teoria segundo a qual o ser 
humanos deveria possuir trs tipos diferentes de fotorreceptores: especializados em luzes de comprimentos de 
onda curtos, como o azul, intermedirios, como o verde, e especializados em luzes de comprimentos de onda 
longos, como o vermelho. 
Somente um sculo e meio depois, em 1964, foram publicados os primeiros resultados experimentais obtidos 
com receptores da fvea (cones) de retinas humanas, por duas equipes de pesquisadores norte-americanos: 
a primeira formada por MacNichol, Marks e Dobelle (fig. 5.1), a segunda, por Brown e Wald. De acordo com 
estes autores, os cones sensveis ao azul possuem uma substncia fotossensvel denominada cianolbio 
(ciano em grego quer dizer azul), nos cones sensveis ao verde h uma substncia denominada clorolbio e 
nos cones sensveis ao vermelho encontra-se uma substncia denominada eritrolbio (cloro e entro so 
prefixos de origem grega que significam verde e vermelho, respectivamente). Estas 
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pesquisas relatam apenas trs tipos de cone, no sendo encontrados cones sensveis s cores intermedirias, como cor de 
jerimum (cor de laranja) ou azul-piscina. Como ento somos capazes de perceber todas as demais cores? 
Se voc observar atentamente os resultados reproduzidos na figura 5.1 e na lmina 5.2, verificar que na realidade existem trs 
tipos de cones que absorvem preferencialmente luzes de uma determinada cor (comprimento de onda). Por exemplo, o cone 
especializado em azul absorve preferencialmente luzes de 450 nm, e absorve com eficincia cada vez menor luzes cujos 
comprimentos de onda se afastam deste valor, isto , luzes cada vez mais violceas (comprimentos de onda mais curtos) ou mais 
esverdeadas (comprimentos de onda mais longos). Isto quer dizer que os comprimentos de onda intermedirios tambm so 
absorvidos por estes trs tipos de receptores, s que menos prontamente, pois precisam de intensidades maiores para produzir o 
mesmo efeito neural. 
Figura 5.]. Absoro espectral (ou sensibilidade espectral) de cones em retinas de seres humanos (parnteses abertos) e macacos 
(nmeros). Os resultados foram obtidos atravs da microespectrofotometria e mostram que, apesar de serem projetadosf!ashes 
de luz de quase todas as cores (comprimentos de onda) do espectro visvel, os cones absorvem preferencial- mente trs cores 
(Azul - 445 nm; Verde - 535 nm; Vermelho - 570 nm). Verificou-se tambm que cada um dos cones estudados absorvia 
preferencialmente apenas uma destas trs cores (comprimentos de onda), o que prova a existncia de apenas trs tipos de cores 
na retina. Luzes de cores intermedirias so absorvidas menos prontamente por um (ou mais) destes trs receptores. Isto pode 
ser visto pela forma caracterstica das curvas e pela considervel superposio de algumas delas. Baseado em dados de Marks ei 
ah, 1964 (no livro de Alpern, 1971) e MacNichol, 1964 (no livro de Robinson, 1977). 
Se ao invs de analisar o comportamento de um determinado tipo de cone, como acabamos de fazer, analisarmos o que 
acontece com uma luz de um determinado comprimento de onda quando ela atinge nossa retina, talvez fique mais fcil ainda 
compreender a percepo das cores intermedirias. Tomemos, por exemplo, um verde-azulado cujo comprimento de onda  
de aproximadamente 490 nm. Um estmulo luminoso com esta caracterstica qualitativa ser absorvido tanto pelos cones 
especializados em azul quanto pelos cones especializados em verde. Pelos resultados da figura 5.1,  possvel verificar, no 
entanto, que esta cor, verde-azulado (490 nm), no  a mais eficiente para nenhum destes dois tipos de cones. Porm, 
ambos transduziro este tipo de energia e enviaro ao crebro impulsos nervosos. So precisamente as informaes 
enviadas em conjunto pelos dois tipos de cones conjuntamente que sero processadas pelo crebro e permitiro a 
percepo de uma cor intermediria entre o azul e o verde. As diferenas entre as informaes provenientes dos dois tipos 
de cones deste exemplo seriam muito mais acentuadas se o olho fosse estimulado com um azul muito esverdeado ou ento 
com um verde extremamente azulado. O mesmo tipo de mecanismo  empregado para a percepo do amarelo, uma cor 
intermediria entre o verde e o vermelho, sendo portanto sinalizada a sua presena pela reao, mais ou menos acentuada, 
dos cones que tm sensibilidade mxima no verde e no vermelho. A percepo das cores que ficam nos extremos do 
espectro visvel, como o violeta, por exemplo, depende da reao mais acentuada de um tipo de cone. No caso, depende 
dos cones especializados em azul, que tambm reagem a comprimentos de onda menores, mas com uma eficincia cada vez 
mais reduzida. 
Para comprimentos de onda mais curtos ainda, que correspondem ao ultravioleta (que no  visvel para o ser humano), 
nenhum dos trs tipos de receptores far a transduo, portanto no sero enviados impulsos nervosos ao crebro. De 
modo anlogo, o infravermelho, correspondente aos comprimentos de onda muito longos, no ser transduzido. 
Como voc percebe estes tipos de energia? Como escuro, ou seja, como ausncia de luz, no ? No entanto, se voc tivesse 
olhos iguais aos das abelhas, veria o ultravioleta como uma cor, porm seria cego. No somente ao infravermelho, mas 
tambm ao vermelho. No caso do olho ser estimulado com uma mistura da luz de trs cores  azul, verde e vermelho  em 
determinadas propores, os trs tipos de cones reagiro, e os impulsos nervosos resultantes levaro o ser humano a 
perceber a luz como branca, semelhante  luz solar. Na lmina 5.3a se encontra uma ilustrao das conseqncias da 
mistura de luzes com estas trs cores. 
At aqui analisamos a percepo de cores a nvel de receptores, porque estivemos destacando dados que podem ser 
explicados pela teoria tricromtica. H, no entanto, um outro conjunto de dados, perceptivos e neurofisiolgicos, que no 
podem ser explicados por esta teoria. 
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Azul 445 Verde 535 Vermelho 570 
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400 500 600 
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76 
77 
5.2. Teoria oponente ou de Hering 
Tente fazer a seguinte experincia: procure uma figura relativamente simples, como um pequeno crculo, 
tringulo ou corao, que seja de cor vermelha bem intensa; procure tambm uma folha de papel bem branco. 
Agora sente-se em um lugar bem iluminado, com o seu material. Olhe para a figura fixamente, sem se mover, 
durante meio minuto (tente contar lentamente at trinta). A seguir, substitua rapidamente a figura pela folha de 
papel branco. O que aconteceu? Olhando para o papel completamente branco voc continua vendo a figura 
que acabou de tirar, s que agora no mais em vermelho e sim em verde, a sua cor oponente (complementar). 
Se voc quiser proceder como Hering, procure outras figuras e voc verificar que, se a figura fixada for verde, 
a sua ps-imagem ser vermelha; se for azul, deixar uma ps-imagem amarela; e vice-versa, se for amarela, sua 
ps-imagem ser azul. Foi por meio de experimentos como estes, criteriosamente controlados, que Hering 
formulou a sua teoria oponente, na qual afirma que a viso de cores ocorre graas a processos oponentes de 
trs sistemas de cores que se opem aos pares: vermelho-verde, azul- amarelo e preto-branco. Isto quer dizer 
que, quando ocorre a sensao de uma cor como o vermelho, concomitantemente ocorre uma alterao na 
sensao do verde. Por este motivo, nas experincias aqui sugeridas, quando se olha demoradamente para uma 
determinada cor, h uma diminuio da sensibilidade do receptor para esta cor. Assim, quando se olha para um 
campo neutro (branco ou cinza), que reflete todos os comprimentos de onda por igual, apenas os oponentes 
de cada cor seriam ativados, uma vez que o receptor que captou a luz refletida da figura vermelha encontra- se 
insensvel. 
Aps 1950, a neurofisiologia vive um grande avano, fruto do desenvolvimento de microeletrodos que podem 
ser inseridos em uma nica clula do sistema nervoso, permitindo registros incrivelmente detalhados e 
especficos. Em 1965, De Valois publicou um trabalho interessantssimo, no qual relata ter encontrado no 
crebro do macaco (ncleo geniculado lateral) neurnios cuja atividade correspondia ao processo de pares 
oponentes da teoria de viso de cores elaborada por Hering, no sculo passado. Na figura 5.2 voc encontra a 
reproduo de um registro obtido por De Valois, correspondente  atividade de uma nica clula no crebro de 
um macaco anestesiado, cujos olhos eram mantidos abertos e estimulados com luzes de diversas cores. A 
clula mostrada da figura 5.2  um neurnio do sistema vermelho-verde. Observe que na coluna escuro 
temos a atividade espontnea desta clula no escuro, o que corresponde a aproximadamente 6 ou 7 impulsos 
em um determinado intervalo de tempo. Quando o olho do animal  iluminado com uma luz vermelha (633 nm), a 
atividade desta clula aumenta consideravelmente, dobrando o nmero de impulsos nervosos durante o 
mesmo intervalo de tempo. No entanto, 
Figura .5.2. Respostas de uma nica clula nervosa do crebro (ncleo geniculado lateral) de um macaco. Estas respostas foram 
obtidas inserindo-se um minsculo microeletrodo no neurnio, enquanto o animal anestesiado recebia, atravs dos olhos 
mantidos abertos, os estmulos visuais de diferentes cores. E fcil observar que os registros correspondem a uma clula de 
atividade oponente do sistema vermelho-verde. Trata-se de um neurnio cuja atividade espontnea (no escuro)  de 
aproximadamente 6 ou 7 impulsos. No entanto, quando o olho  estimulado com luz vermelha (633 nm) sua atividade aumenta, 
chegando a dobrar o nmero de impulsos nervosos. Por outro lado, diante de estimulao com luz verde (533 nm), sua atividade 
diminui drasticamente, chegando a uma inibio quase total. 
quando, uma luz verde (533 nm) incide sobre o olho do macaco, acontece exatamente o contrrio: as descargas do neurnio 
cessam quase que completamente, isto , ocorre uma inibio da atividade eletro fisiolgica da clula nervosa, O mesmo tipo de 
registro foi encontrado para clulas com atividade oponente para azul-amarelo. 
Comprimento 
Cor de onda nm Luz acesa Escuro 
1 III Ii 
465 
480 
Verde 533 
563 
586 
603 
Vermelho 633 
667 
706 
78 
79 

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Fundamentado nos resultados de pesquisas psicolgicas e fisiolgicas a respeito da viso de cores, pode-se afirmar, 
portanto, que na retina existem trs tipos de cones, o que est de acordo com a teoria tricromtica (componente), e que nos 
elos de integrao seguintes (clulas ganglionares na retina, ncleo geniculado lateral e crtex visual no crebro) encontram-
se neurnios visuais que tm respostas antagnicas (excitao-inibio) s cores oponentes (vermelho-verde; azul-amarelo), 
o que est de acordo com a teoria oponente. A combinao das duas teorias (tri cromtica ou componentes e 
oponente) no explica todo o processo da viso de cores, uma vez que apenas mostra como a partir das trs cores 
primrias (verde, vermelho e azul) chega-se a quatro cores psicologicamente primrias (verde, vermelho, azul e amarelo). 
Sabemos, porm, que o ser humano  capaz de distinguir 128 cores espectrais (matizes). Como isto  possvel? 
Os resultados experimentais mostram que a oponncia dos neurnios visuais  cada vez menos acentuada. Isto significa 
que, a nvel do olho, uma clula ganglionar responde com excitao quando os receptores so estimulados com uma luz de 
630 nm (vermelho) e, com inibio, quando a estimulao corresponde a uma luz de 530 nm (verde), portanto  preciso 
que haja uma diferena de 100 nm para que esta clula passe do seu estado de excitao mxima para o estado de maior 
inibio. No crebro estas diferenas so gradativamente menores  medida que se registra a atividade de clulas nervosas 
pertencentes a nveis progressivamente mais elevados do sistema nervoso central. No ncleo geniculado lateral  que 
corresponde a um elo intermedirio do sistema visual  uma clula que responde com excitao quando o olho do animal  
iluminado com 630 nm (vermelho) passa ao estado de inibio mxima quando sobre o olho incide uma luz de, por 
exemplo, 580 nm (amarelo). Neste caso a oponncia corresponde a uma diferena de apenas 50 nm. Em um nvel mais 
elevado ainda, como no crtex visual, a oponncia ocorre entre, por exemplo, 630 nm (vermelho) e 610 nm (laranja), o que 
corresponde a uma diferena de apenas 20 nm entre as cores. Com oponncias cada vez mais afinadas, o ser humano 
finalmente atinge a capacidade de discriminar 128 cores espectrais (matizes). 
5.3. Cegueira para cores 
Agora voc certamente j tem condies de saber o que  a cegueira para cores ou daltonismo. A que se deve esta 
anomalia que leva pessoas a confundir o verde com o vermelho e o azul com o amarelo? Anomalias no tricromatismo 
ocorrem, provavelmente, devido a propores anormais dos trs tipos de cones. Entre os tricromatas anormais, a grande 
maioria tem deficincia de clorolbio, pois para obter o amarelo no anomaloscpio precisam acrescentar muito mais verde a 
uma mistura de luzes vermelhas 
e verdes do que as pessoas com viso de cores normal. O anomaloscpio 
 um aparelho empregado para diagnosticar a cegueira de cores. Consiste 
em um crculo, cuja metade  iluminada com um amarelo espectral especfico. A outra metade do crculo  iluminada com 
duas luzes, uma vermelha e outra verde, que podem ser misturadas em diferentes propores. 
A mistura do verde com o vermelho resulta na percepo de um amarelo. 
Comparando o amarelo espectral especfico com o amarelo resultante da 
mistura de verde com vermelho, a pessoa pode produzir um amarelo que 
 percebido como igual ao primeiro. 
So poucos os casos de tricromatismo anmalo devido a deficincia de eritrolbio. Extremamente raros so os casos de 
deficincia de cianolbio. No caso de uma completa ausncia de um destes tipos de cones, fala- se de dicromatismo, pois 
nestas circunstncias o indivduo far discriminaes entre cores com apenas dois tipos de cones. Estudos meticulosos, 
feitos tanto com tricromatas anmalos como com dicromatas, revelaram que, alm da cegueira para cores, no apresentavam 
nenhuma outra anomalia, o que nos leva  concluso de que os dicromatas desprovidos de cones sensveis ao verde 
possuem um nmero proporcionalmente maior de cones sensveis ao vermelho e ao azul. 
No caso de tricromatas anmalos, provavelmente h uma proporo diferente da normal dos trs tipos de cones. 
Se a pessoa no tiver um dos trs tipos de cones, ela ser cega a uma das cores, mas tambm ter outras deficincias visuais 
resultantes do menor nmero de receptores. Quando apenas um tipo de cone  encontrado, falamos em monocromatas. Da 
prxima vez que voc fizer uma visita a um oftalmologista, pea para ele lhe mostrar alguns dos testes para cegueira de 
cores. Um dos mais conhecidos  o teste de Ishihara e consiste em diversas figuras contendo pequenos crculos coloridos 
formando nmeros. Trata-se de um teste muito prtico e de fcil aplicao, pois, se a pessoa tiver viso tricromtica 
normal, reconhecer determinados algarismos, se tiver anomalia em um dos tipos de cones, por exemplo se for cega ao 
vermelho, reconhecer outros algarismos. Evidentemente este teste s pode ser utilizado com pessoas alfabetizadas que 
saibam ler nmeros. Existem, no entanto, outros testes que podem ser utilizados com crianas muito jovens e analfabetos. 
Dentre estes, um dos mais antigos foi desenvolvido por Alarik Holmgren, na Sucia, e consiste em uma coleo de fios de l 
de diversas cores que devero ser separados de acordo com a sua cor. 
5.4. Viso de cores  Uma capacidade inata ou aprendida? 
A suposio de que somos capazes de perceber cores ao nascer fortaleceu-se com dados obtidos em pesquisas psicolgicas 
e neurofisiolgicas. Observando a preferncia de bebs colocados diante de dois estmu 80 
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los de cores diferentes, foi possvel determinar que distinguem as diferentes cores e tm preferncias bem determinadas, 
pois passam mais tempo olhando para as cores de comprimento de onda longo, isto , as chamadas cores quentes. Por meio 
da eletroencefalografia (potenciais evocados),  possvel registrar a atividade de uma dada regio do crebro. Assim, quando 
o olho de um ser humano adulto  estimulado sucessivamente com numerosos estmulos visuais, cada um de uma cor, 
observa-se uma resposta caracterstica na regio do crtex occipital (rea sensorial primria da viso). Quando se faz o 
mesmo tipo de registro com bebs recm-nascidos, obtm-se, aproximadamente, o mesmo tipo de resultado, indicando que 
a estrutura neural da viso de cores, aparentemente, j est pronta quando nascemos. Significa que no precisamos aprender 
a discriminar as cores. O que aprendemos, mais tarde,  denominar as cores de acordo com os padres da nossa cultura. 
Desta forma, um esquim tem cerca de 10 nomes distintos para diferentes tonalidades de branco, que ns brasileiros 
aglomeramos entre o branco e o gelo. Para descrever tonalidades intermedirias, recorremos a adjetivos, sufixos e 
outros artifcios de linguagem, a fim de poder transmitir a nossa percepo: falamos de um branco sujinho ou de um gelo 
claro ou muito clarnho. Para o ouvinte, obviamente, estas explicaes .nem sempre sero muito teis. 
Pense, por um momento, na seguinte afirmao:  a arara  azul. Quando fazemos declaraes deste gnero a respeito das 
cores dos objetos que se encontram em nosso ambiente, no temos conscincia de que na realidade ocorre uma srie de 
coisas muito interessantes entre a luz do Sol (que  branca, portanto, composta de todos os comprimentos de onda do 
espectro visvel) que incide sobre as penas da arara, a luz que  refletida da superfcie do corpo da ave e a minha afirmao 
de que o animal  azul. Na realidade, o que se verifica  que, de todos os comprimentos de onda que incidem sobre as 
penas da arara, todas as cores so absorvidas pelas penas, exceto a cor azul, que  refletida e atinge minha retina quando 
observo o animal. Quando misturamos nossas tintas para pintar, estamos misturando diversos pigmentos que tm a 
capacidade de absorver uma parte das luzes do espectro e refletir outras. J vimos que misturando trs cores de luzes  
azul, verde e vermelha  obtm-se uma luz branca (lmina 5.3a). O mesmo no acontece, porm, se misturarmos nossas 
tintas azul, amarela e vermelha, porque desta vez estamos misturando substncias qumicas (pigmentos) que tm 
propriedades prprias, e o resultado ser uma tinta de cor preta. Estas trs (azul, amarelo e vermelho) so as cores 
primrias (lmina 5.3b). Para obter uma tinta de cor branca, precisamos de um pigmento que tenha a capacidade de refletir 
todos (ou quase todos) os comprimentos de onda da luz solar. A cor que percebemos como preta  precisamente a quase 
ausncia de luz refletida da superfcie de um objeto. 
Vamos refletir a respeito dos termos empregados para designar as cores. Percebemos de imediato que temos apenas quatro 
termos bsicos: vermelho, amarelo, verde e azul. Temos ainda dois termos relativamente distintos: marrom e violeta. 
Existem algumas cores que so designadas pela combinao dos termos acima mencionados, como, por exemplo, azul-
esverdeado, verde-azulado, amarelo-esverdeado e assim por diante. Um grande nmero de matizes so descritos atravs da 
comparao com objetos caractersticos, como, por exemplo: azul-celeste, verde-garrafa, amarelo-ouro, vermelho-tijolo e 
cor de areia. Deve-se ter em mente, porm, que este tipo de designao no est completamente livre de ambigidades, pois 
os objetos caractersticos podem ser incomuns, no existir ou apresentar colorao diferente em diferentes regies 
geogrficas. A designao cor de laranja, usual nos Estados do sul do Brasil  freqentemente substituda por cor de 
jerimum no nordeste, pois nesta regio as laranjas, alm de menos freqentes, tm usualmente uma colorao amarelo- 
esverdeada. 
Por outro lado, dar nomes cientificamente corretos s cores sempre foi um problema difcil, e dentre as propostas mais 
importantes para uma soluo encontra-se a sugesto dada em 1915 por um retratista americano de nome Albert Munseli. 
Ele criou um sistema de representao tridimensional de cores que permite incorporar as variveis brilho, matiz e 
saturao. O brilho refere-se  intensidade de cor. O matiz refere-se ao comprimento de onda e  a caracterstica do 
estmulo que percebemos como cor; a saturao refere-se  pureza da cor. Tomemos o cor-de-rosa como exemplo: vermelho 
e cor-de-rosa tm o mesmo matiz, isto , a mesma cor, o que os distingue  sua saturao, pois o cor-de-rosa  um vermelho 
diludo. O slido elaborado por Munsell assemelha-se a uma laranja de 20 gomos, na qual cada gomo  reservado para uma 
determinada cor que pode variar de saturao, dependendo da distncia a que ela se encontra do eixo central onde se 
concentram os tons mais acinzentados (menos saturados). Variaes no brilho, que  outra varivel das cores, so 
ordenadas de baixo para cima em cada gomo e dependem da quantidade de branco ou preto que foi adicionado  cor. 
Aproximadamente a mesma representao foi adotada por Geldard quando elaborou o fuso de cor mostrado na figura 5.3. 
Na lmina 5.4, encontra-se um crculo de cores, ou crculo cromtico, contendo as cores do espectro solar e a prpura, que 
no faz parte deste espectro. 
5.5. Ver cores com as mos  Uma capacidade extra-sensorial? 
Depois que duas reprteres americanas divulgaram o caso de uma camponesa russa que era capaz de discriminar cores com 
as mos, verificou- se que muitas pessoas possuam esta mesma capacidade, para a qual no 
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Verde 
Figura 5.3. Uma forma simples do fuso de cor. A dimenso de brilho  representada pelo eixo vertical, que vai do branco ao 
preto, passado por todos os cinzas discriminveis. A saturao da cor  representada pelo raio do crculo central e seu permetro 
representa o matiz. E no permetro do fuso que se encontram todos os comprimentos de onda do espectro visvel (cores), bem 
como as prpuras que so cores no espectrais resultantes da mistura de cores das extremidades do espectro (violeta e 
vermelho). Trata-se, portanto, de cores que no so monocromticas. 
teloso conseguiu demonstrar que no se tratava de poderes misteriosos que estas pessoas possuam. Seu 
primeiro cuidado foi medir a quantidade de calor que era absorvida ou refletida de superfcies de diferentes 
cores. A seguir, comparou estas medidas com os limiares diferenciais para temperatura e descobriu que a 
diferena entre a quantidade de calor refletida por uma superfcie vermelha e uma superfcie azul  muito maior 
que o limiar diferencial mdio para temperatura do ser humano. Isto , os receptores de temperatura da palma 
da mo tm sensibilidade suficiente para perceber o calor refletido pelos objetos. Depois que foram 
demonstradas as propriedades do sistema sensorial envolvido, o assunto passou da percepo extra-sensorial 
para a percepo sensorial. 
havia uma explicao. No se encontrava na pele destas pessoas nada que 
se assemelhasse a um fotorreceptor. Alguns autores chegaram a afirmar que aproximadamente trinta por cento 
das pessoas teriam esta capacidade, e publicaram-se manuais ensinando as principais etapas para a aquisio 
desta discriminao. Aps muita controvrsia, um cientista mais cau o 
Branco 
Preto 
. 
84 
85 
